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sábado, 31 de dezembro de 2011

João Guilherme

Inspirado em uma história levemente real.

Eles estavam tentando, até com boa vontade, mas era realmente difícil. Não com aquilo na porta de casa, aquele imponente carro negro, reluzindo na noite e destoando da decoração e do figurino. Enquanto as casas da vizinhança ouviam todo tipo de música alta e alegre e os vizinhos se preparavam para o grande momento, aquela família aguardava a virada do ano procurando esconder o constrangimento que sentia por abrigar um carro de funerária em plena garagem. A culpa era do namorado da filha mais nova: ele trabalhava em uma capela e estava de plantão naquela noite. Defuntos, afinal, não esperam terminar os fogos na TV ou acabar o último pedaço de pernil para bater as botas. Alguém tinha de fazer o trabalho funesto e, para infelicidade daquelas pessoas, a noite era do pobre rapaz.

Não que a festa tivesse sido preparada com desleixo ou que houvesse algum motivo para tristeza. Muito pelo contrário. Todos passavam muito bem, obrigado, e havia enfeites por toda a casa. A TV fora posta em um lugar privilegiado para que as crianças se distraíssem até a chegada da meia-noite e os parentes acompanhassem a contagem regressiva. O banquete à mesa era algo esplêndido: carnes de todos os tipos (menos de galináceos, pois estas aves ciscam para trás e isto dá azar no ano novo), doces a perder de vista e bebidas à vontade. Mas tudo parecia sem gosto com aquela coisa estacionada.

O tio mais velho estava absolutamente revoltado:

- Este moleque só pode estar de sacanagem! Colocar um rabecão dentro de casa em plena noite de ano novo?

A mãe buscou amenizar a situação oferecendo o máximo de comida possível aos convidados. Mas sempre que metia os olhos na janela, se assustava e deixava um salgadinho cair no chão, o que não ajudava em nada.

A avó, matriarca da família, era a única a ver na cena um tanto macabra algo de bom:

- Sonhei que desta noite eu não passo... aquele caroço no meu pescoço aumentou um absurdo, vem cá ver - ordenou a um aterrorizado netinho.

A jovem, que tentava manter o namorado alheio aos comentários dos parentes, se encolhia um pouco mais na cadeira cada vez que era ser atingida por um dos muitos olhares de reprovação após ter estragado o réveillon.

A tia fofoqueira, cujo esporte favorito era deixar embaraçados todos os presentes nas reuniões familiares, desta vez fora compelida a não perguntar nada sobre um possível casamento entre os dois pombinhos.

Até que o imponderável aconteceu. Não era para ser agora, não a poucos minutos da contagem regressiva. Não, aquele carro, definitivamente, não deveria ter sido solicitado naquele momento.

Mas foi.

A filha mais velha, casada, dois filhos e grávida do terceiro, sofreu o que os livros de medicina chamam de amniorrexe, levando-a ao princípio do processo de eutócia. Enquanto ela se esvaía em água e seu pai entrava em estado catatônico, o marido se perguntava, inconformado: "Por quê, meu Deus? O médico falou que a criança só iria nascer depois do dia 15!”

É, mas o destino prega peças. Quem imaginaria que o menino ia escolher justamente a noite de ano novo para vir ao mundo? Justo quando todos estão ligando uns para os outros, desejando felicidades e congestionando as linhas telefônicas. Justo na hora em que chamar um número de emergência é tarefa das mais difíceis, a mulher resolve entrar em trabalho de parto.

Um parto mesmo foi convencê-los de que a única solução seria levá-la ao hospital naquele bendito rabecão. Eles estavam prontos para fazer todos os procedimentos na sala de estar mesmo. Só mudaram de ideia quando ela sofreu uma contração tão forte que quase fraturou a mão que estava segurando – a do marido, por acaso. Enfim, às favas com os maus agouros, a saúde da criança era mais importante. E, junto com o espocar dos fogos, o rabecão partiu desabalado em direção ao hospital, pronto para trazer mais uma vida ao planeta, pronto para fazer mais uma família feliz.

João Guilherme nasceu às 02h02 do dia 01/01, pesando 3,3kg e medindo 55cm. Absolutamente saudável e voraz em sua primeira mamada. Médicos e enfermeiros fizeram do menino o principal assunto naquele plantão. Afinal, quando o tenebroso carro preto parou na porta do hospital e dele saiu uma grávida em vias de dar à luz, o pensamento de todos os presentes foi basicamente o mesmo: "Só pode ser bom agouro".

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Alguém explica?

Caro leitor, peço que exercite seu poder de abstração e tente imaginar a cena:

Era noite fria e silenciosa em uma rua quase deserta de Mesquita. Sou um homem da noite, e são poucas as situações que me causam temor. A visão de um horizonte povoado apenas por alguns animais buscando proteger-se do relento e carros estacionados sob a luz dos postes de iluminação pública me é familiar. Confesso que aprecio o gosto do ar frio, o cheiro da névoa, a respiração que se torna concreta quando o ar quente dos pulmões enfrenta o sopro gelado da vastidão noturna.

Normalmente estou armado para todo tipo de surpresa, agradável ou não, que possa aparecer em minhas incursões pela cidade. Mas o fato é que a cena que presenciei hoje me pegou desprevenido. Ainda me sinto alerta e já contarei por quê:

Depois de caminhar alguns passos, acompanhado pela iluminação bruxuleante das TVs que atravessava as janelas das casas, deparei-me com a presença de quatro homens, altos e mal-encarados, parados em uma calçada. Todos muito vestidos, protegendo-se do vento, mantinham uma conversa de poucas palavras, praticamente inaudíveis. No meio deles, um imponente cão negro observava o meu caminhar. Aparentemente, era o único que havia percebido a minha presença. De repente, antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, um dos homens colocou a mão no bolso, e dele sacou um aparelho de celular. No exato momento em que eu passei por eles, uma música começou a tocar.

O som de violino não me era estranho, a voz feminina que saiu dos alto-falantes do celular tampouco. Entretanto, demorei um pouco para me dar conta do que estava prestes a acontecer naquela rua. E qual não foi minha surpresa ao ouvir a mulher pronunciando palavras que qualquer testemunha daquele momento jamais esperaria ouvir:

"I know that we are young

And I know that you may love me

But I just can't be with you like this anymore...

...

...

...

...

Alejandro..."

PORRA!!!! P.Q.P!!!! Lady Gaga!!!??? É serio isso, meus amigos?! Como faz, agora?

Depois de um breve soslaio de reprovação para o grupo que estragou minha quase crônica policial, continuei tranquilamente meu caminho de casa. Ou quase isso, já que ninguém vê o que eu vi e sai andando tranquilamente.

Clique aqui pra ver o clipe original e perceber que a realidade pode ser muito mais surpreendente que as ideias mirabolantes da Lady Gaga. Ou não.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A nova década já começou mal

Não quero e não gosto de ser rabugento (que isso), pessimista (nããããooo), mau humorado (Cláudia manda beijos), mas o ano de 2011 não traz bons augúrios. Os próximos nove anos, aliás, serão complicadíssimos, escrevam o que estou dizendo. Nem é o risco de uma terceira guerra mundial eclodindo nas Coreias ou no Oriente Médio, ou o governo Dilma, ou o retorno triunfal de Lula em 2014. Também não falo do colapso ambiental e energético que o consumo desenfreado puxado pelos países emergentes. Mas tudo isso fica em segundo plano quando estamos diante da quebra de uma sequencia que marcou a mais intensa das décadas da história. Durou pouco mais de dez anos, mas se tornou uma tradição que certamente, iremos repetir sempre que possível. Mas 2011 trará seu fim. Sentiremos saudades dos óculos de ano novo. Mas os genuínos. Aqueles, cujas lentes eram os zeros do ano vindouro. Ou seja, para ter um bom óculos, é preciso que um ano tenha pelo menos dois zeros em seus algarismos. PORRA, 2011!!!


Vejam como eram divertidos e lúdicos. Faziam a alegria de crianças, adultos, até mesmo de políticos (não é, Sr. Kassab, o estiloso de 2009?). Para 2011 até tentaram emplacar o modelo abaixo, mas eu acho que não ficou muito legal. 1 não é 0. Zero é uma boa lente, mas um pode ser, no máximo, uma haste.


Enfim, pra quem ainda tem alguma esperança de que esse ano vai prestar, tsc, tsc, só vou deixar meu Feliz 2011 por pena e porque é convenção social.
Em 2020 a gente conversa. Até!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

(coloque sua onomatopeia de implosão aqui)

Eu queria ter a incrível capacidade de transformar em pó um argumento que parece irresistível. E com uma só frase.

Querem dois exemplos, e só de hoje?

1) Manchete de um grande jornal: "0,01% é o percentual de moradores do Alemão que acusam policiais"
Resposta de um político famoso, no twitter: "Cuidado com os números. Sob essa ótica, 0,005% dos cariocas são assassinados por ano."

2) Pergunta da âncora do programa de TV: "O que leva um analista de sistemas de 23 anos a roubar e vazar documentos da diplomacia americana?"
Convidado 1: "É provavelmente uma forma de protesto e não aceitação à política externa ame..."
Convidado 2: "Vaidade."

Fim de papo.

domingo, 3 de outubro de 2010

"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido"

A quem interessar possa, a frase do título é do escritor José Saramago e eu já falei sobre comunicação, leitura e escrita por aqui. Depois de meses sem postar, retomar um assunto antigo – em todos os sentidos – não é muito esperto. Mas foda-se tudo bem. Sigamos.

Como fez à exaustão em sua existência, Saramago se equivocou. Desta vez, na crítica ao Twitter. Disse que o microblog representa uma tendência a comunicar-se com cada vez menos complexidade, ao monossílabo. Uma passada superficial sobre os assuntos mais populares (os Trending Topics) do serviço pode dar razão ao escritor, falecido em junho deste ano.

Saramago, porém, sabia que a comunicação curta e ágil também pode render reflexões extensas e aprofundadas. Só devia estar de mau humor ou magoado por não saber tuitar. De fato, o curso da humanidade é pontuado por grandes frases que caberiam perfeitamente nos 140 caracteres de um tweet. Querem ver uns exemplos? Obviamente, foram retirados de seus respectivos contextos, mas é isso que faz a História.

“Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico.” (Pedrinho, o Primeiro - 91 caracteres)

“Eu digo a vocês hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho.” (Martin Luther King – 120 caracteres)

“Este é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade.” (Neil Armstrong – 77 caracteres)

“A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram.” (Ulysses Guimarães, ao promulgar a Constituição de 1988 – 61 caracteres)

“É bom ter livros de citações. Gravadas na memória, elas inspiram-nos bons pensamentos.” (Churchill - 86 caracteres)

Ainda há muitas outras, que não citarei (fiquem à vontade para fazê-lo nos comentários), por simples razão: o texto acima tem 1400 caracteres, com exceção dos espaços. Pode contar (not). Ele foi motivado pelo simples fato de o Twitter estar destruindo a minha vida, chegando a me fazer esquecer deste blog. Tive de ser acordado pela leitora-sócia Dari pra poder digitar este texto. Mas não consigo parar. Há tratamento? Saramago estava certo?

Também tento provar pra mim mesmo que ainda tenho a prática de escrever textos mais longos, apesar de 1400 caracteres ainda ser muito café com leite. Mas o número é simbólico, vocês entendem...

Bom, nos vemos no meu twitter. Tenho muito ainda a grunhir.

Me lembrei das redações que fazia pro curso de inglês, que deveriam ter pelo menos 100 palavras. Fiz um exercício parecido agora. Só que mais divertido

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

♪ Abaixa o Som! ♪ (Parte 3a - Anos 2000)

Já leu???
Introdução
Anos 80
Anos 90a
Anos 90b
Anos 90c




Esqueçam o terrorismo. O Youtube foi o grande perigo da década.

Claaaaaro que foi tudo planejado. A série sobre música ruim foi adiada para coincidir com o fim da década, que outra razão poderia ser? O que parecia (reitero, parecia) ser um esquecimento ou abandono (não esqueci nem abandonei, ok? Certo?) na verdade se provou um acerto, visto que só chegando ao fim da década para podermos analisar o panorama de modo a não esquecer nenhuma daquelas vozes abençoadas que tentaram nos enlouquecer nestes anos 2000. Assim como nos anos 90, esta década terá seus ícones da música ruim expostos em três etapas, a começar por esta.

Assim como em todas as outras áreas, a internet foi decisiva para que o vírus da falta de noção se espalhasse pelos lares brasileiros. Por um lado isto foi ótimo, pois gente muito talentosa apareceu no mundo inteiro graças à divulgação na rede. O filtro que as gravadoras e distribuidoras impunham também enfraqueceu bastante. Temos acesso ao trabalho de artistas que demorariam anos para sair do eixo EUA-Europa ou que sequer apareceriam nestas terras. Por outro lado, nem tudo são flores no reino da internet: assim como há o trigo, também há o joio, e parece que a galera não soube separar isso muito bem...

Podemos dividir os artistas da internet em alguns tipos:
- os bons, que fazem sucesso - inclua-se neste grupo exemplos como a banda inglesa Arctic Monkeys, que teve o álbum de estreia mais vendido da hisória da Grã-Bretanha (superando até os Beatles) e começaram em programas de compartilhamento de arquivos;
- os bons, que não fazem sucesso - vide os milhares de verdadeiros artistas que fazem covers de músicas famosas e, infelizmente, não têm tanto reconhecimento. Falarei deste grupo em uma oportunidade mais apropriada;
- os ruins, que não fazem sucesso - o menos perigoso de todos os tipos, afinal, é ruim e ninguém ouve mesmo;
Não me estenderei nos grupos citados acima, pois meu foco é música ruim e que tenha alguma repercussão. Não tô aqui pra chutar cachorro morto. Não ainda. Portanto, tratemos dos artistas que alcançam algum sucesso com suas músicas se não constrangedoras, nauseantes. Na música ruim que faz sucesso há dois subgrupos - os que se levam a sério e os que não se levam a sério. Os que se levam a sério normalmente ficam deslumbrados demais com seus 15 minutos de fama, se acham talentosos e nem imaginam que os 'fãs' só acham tudo muito engraçado e ridículo. Já o outro grupo sabe que é engraçado e ridículo, e por isso mesmo tenta a sorte na maior cara de pau. Palmas para estes, pelo menos pela coragem.
Querem três exemplos? Voilà.

Atenção nos links e nesses figuras: o primeiro é um clássico exemplo de um cara de pau que só queria aparecer na net e acabou parando até na TV. Os segundos foram um pouco mais ambiciosos. Sem perder o ar de galhofa, apareceram em várias versões no rádio e na TV (nota: só para lembrar, o de amarelo não é O Lerdo, ok?). Já a terceira é a típica sem noção que acha que é mesmo linda e absoluta e não percebe que a gritaria dos 'fãs' é brincadeira hehehe

Vocês pensam que tecnologia é só internet? Nem pensar! Como diria Regina Casé, há um Brasil a ser descoberto, e um Brasil que descobriu a facilidade que é ter um computador em casa e equipamentos de gravação mais acessíveis. Falo, meus queridos, da Periferia, com "P" maiúsculo, que nos oferece o que há de mais inovador e, principalmente, mais precário em termos musicais. Dos gêneros importados às legítimas criações nacionais, os rincões brasileiros exibiram na década uma vasta produção de música ruim. Atenção, não estou questionando a legitimidade destes movimentos. Pelo contrário. O Sudeste não tem condições nem o direito de monopolizar o cenário musical brasileiro. Ou seja, cariocas e paulistas: música ruim não é exclusividade de vocês!!!
Que tal falar em termos objetivos?

Esses já são clássicos. Conquistaram o Brasil com sua música profunda e envolvente e seus cabelos esvoaçantes, como as belas madeixas da moça de terno nesse vídeo aqui. O lado bom é que as letras de duplo sentido continuam, mas eles nos poupam das danças vulgares. Melhor ainda: se a Joelma continuar a cabeça desse jeito, um dia ainda vira o cérebro ao contrário e nos dá um pouco de paz.

Enfim, o terceiro vértice da revolução tecnológica da música ruim. Este existe há mais tempo que os outros, mas nesta década aumentou sua influência. Falo da incrível capacidade que os autores e diretores de novela têm de achar músicas dando sopa e transformá-las em grude nos ouvidos. Vale aqui uma menção honrosa à Glória Perez. Da América às Índias, ela é o retrato perfeito de alguém que escolhe a dedo a trilha sonora do nosso mau humor. Música ruim não é exclusividade da trilha internacional. Se pagode e forró, ritmos genuinamente brasileiros, já são ruins, os de novelas então, são ainda piores, pois conseguem atingir o fundo do poço em duas categorias. Quase tão ruim quanto estes modismos étnicos são os artistas 'lançados' em trilhas de novelas. A música é rasa, mas tem no DNA o genótipo da equação mediocridade/sucesso. Resultado: um beijo dos protagonistas num dia de audiência alta leva a musiquinha infame às paradas de sucesso. Mas não se engane. Tudo é muito efêmero e cruel. Depois do último capítulo, os artistas caem num ostracismo de dar dó e ninguém (ninguém mesmo) lembra que as músicas um dia existiram. Tudo porque estão mais interessados na trilha sonora da vez, nas bugingangas e bordões dos personagens da nova novela.
Duvida? Te desafio a lembrar dessas aqui.

Novelas: durante oito meses vemos clichês culturais, violência (na foto - ao corpo, no link - aos ouvidos) e apelação regados com uma trilha sonora inesquecível. Inesquecível porque é martelada à exaustão em nossas cabeças. O pior é quando elas influenciam a criação de outras pérolas, como essa aqui.

Bom, chegamos ao fim da primeira parte. Ainda há muita década a lembrar. E uma nova década pra escutar. Espero que tenhamos menos dores de ouvido com as músicas ruins. Mas que soframos o suficiente pra eu fazer uma nova retrospectiva em 2020. Feliz 2010's!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Sangue, suor e lágrimas

Texto retirado do site da Revista Mundo Estranho. Para lê-lo todo, basta clicar aqui.

1. Quando você faz um machucado que ultrapassa a camada da pele - que mede de 1 a 4 mm -, vasos sanguíneos podem ser cortados. O sangue que se espalha pelo local contém várias substâncias, de glóbulos vermelhos (que transportam oxigênio) às plaquetas (responsáveis pela coagulação)

2. Imediatamente o organismo direciona mais plaquetas para a região e tem início a produção de fibrina - substância que só se forma no sangue quando um vaso é rompido. As plaquetas se juntam nas pontas dos vasos cortados e atuam como um tampão, parando o sangramento em alguns minutos. A fibrina age como a cola dessa união de plaquetas

3. A defesa da região leva cerca de três dias e é feita pelos glóbulos brancos. Essas células sanguíneas destroem seres estranhos que entraram no corpo pelo machucado - como bactérias. O processo de defesa deixa a ferida inflamada alguns dias. Nesse período também aparece a "casquinha" do machucado, que é simplesmente o sangue coagulado e ressecado

4. Após a ação dos glóbulos brancos, vem a limpeza geral. Entram em cena os macrófagos (um tipo de célula presente na pele), que "engolem" células mortas e as últimas bactérias que restaram. Ao mesmo tempo, cresce o fluxo de sangue na região, dando origem àquela vermelhidão típica de machucado. Com mais sangue, multiplicam-se as células na porção superficial da pele

5. A irrigação sanguínea extra também traz algumas células chamadas fibroblastos, que produzem um tipo especial de tecido: o colágeno. Aliado à multiplicação das outras células da pele, o colágeno forma novas fibras. São essas fibras que se juntam para fechar de vez a ferida, o que ocorre de fora para dentro do machucado

6. Cerca de duas semanas após o acidente, a ferida já está totalmente coberta com uma nova camada de pele. No máximo, dependendo da gravidade do corte e do organismo de cada pessoa, restará no local uma pequena cicatriz para lembrar o acidente

Uso o texto acima para dar alguma relevância ao fato de que quase perdi o dedo ao usar um estilete no dia de ontem. Também deixo aqui registrado o fascínio que tive ao conhecer o processo de sutura de uma ferida. Com exceção da aplicação de iodo para assepcia (fui à lua e voltei) e das injeções de Voltarem (minha nádega direita ainda dói), antitetânica (meu braço esquerdo ainda dói) e contra hepapite (meu braço direito ainda dói, mas essa eu só tomei porque já tava no posto mesmo, só aproveitei a viagem), achei muito legal ver minha pele sendo costurada pra que a fibrina e os seus amigos possam trabalhar com mais eficiência. Palmas para a Medicina! Vaias para o sistema de saúde, pois esvaí em sangue no hospital por mais de duas horas pra poder tomar os devidos pontos!

Acho que deu pra perceber que eu não tive infância e nunca precisei de pontos. Isso deve explicar minha empolgação. Só não coloco uma foto pra não espantar nossos leitores, que já não são muitos.

P.S.: Tô brincando, não corri o risco de ficar que nem o Lula. Foram só quatro pontos, mas como o corte foi profundo, sangrou pra burro =)

P.S.2.: O título do post, além da óbvia referência ao discurso de Churchill (não é inteligência, é google, tá? hehehe), também representa o momento do acidente: sangue, por causa do corte; suor, de nervoso, pois eu estava fazendo um trabalho, para entregar no mesmo dia; e lágrimas, que virão com a nota, já que o professor aceitou que eu entregasse o trabalho hoje hehehehe. Pelo menos o esforço foi reconhecido.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sobre leituras e escritos

Incontáveis foram os momentos em que passou pela minha cabeça retonar à casa, sentar-me defronte ao teclado, deitar meus olhos sobre a tela em branco e divagar sobre todos os assuntos: a agenda cultural da semana, o casamento de Lula e Sarney (celebrado por Dilma Roussef e apadrinhado pelos fofos Collor e Calheiros), o desejo da minha mãe de me dar um irmão (um cãozinho shitzu), e por aí vai... tive uma ideia não escrita em praticamente todas as semanas recentes. De umas, farei proveito. De outras, até me esqueci. Em comum, o fato de que nenhuma saiu de mim para chegar a vocês. Por quê?

Eu poderia tentar enganá-los e enganar-me dizendo que são a faculdade, o trabalho etc. os reponsáveis pela ausência de todos os Conspirados aqui. Mas as férias já terminaram há tempos e a frequência de postagens continuou pífia. De minha parte, admito que tive tempo livre suficiente para escrever alguns posts curtos ou outros mais longos. Que meus rompantes-criativos-não-levados-à-frente não me deixem mentir. Também não deixei de acompanhar blogs. Não deixei de ler. E quanto mais lia, mais percebia que sou muito mais leitor do que escritor. Não se enganem, adoro este lugarzinho pra se falar mal dos outros, adoro os comentários sempre bem-humorados e adoro a pequena rede de amigos blogueiros criada. Mas, sei lá. Tem certas coisas que leio que me fazem desistir de escrever. Não pelo fato de serem ruins, pelo contrário. São tão boas que não me considero apto a colaborar, a confrontar, a participar.

São sintomas de três defeitos meus: a megalomania, a pouca auto-confiança, o egoísmo. Megalomania porque eu quero ser sempre o melhor. Se eu não for, não brinco. O problema é que eu, obviamente, não sou. E ainda bem que não. Se fosse, o mundo blogueiro estaria nivelado por baixo. Isso nos leva ao segundo defeito: como há gente muito melhor, tudo o que eu tentar fazer vai ser, no máximo, mediano. Pra que perder tempo fazendo algo mediano? Pouca auto-confiança. Pouca confiança na minha capacidade de aprendizado. Uma pessoa saudável começa mal e melhora, até ficar boa. Eu começo mal até desistir. Tem ainda o egoísmo. Assim como acontece com todo mundo, a leitura desperta o pensamento, o pensamento desperta a expressão. A expressão pode se desdobrar na escrita. A escrita atrai a leitura, e foi assim que ficamos mais inteligentes. Eu leio, eu penso, eu fico mais inteligente, mas não me expresso. Mau, muito mau. Sinal de que sou egoísta, não aceito dividir meu conhecimento. Egoísta e contraditório: se meus pensamentos me são tão preciosos, por que não pô-los à disposição para enriquecer o debate, para serem endossados ou desmentidos? Porque não tenho tanta confiança assim na 'preciosidade' deles. Ainda bem, né. Pelo menos tenho semancol. Só acho que tenho um pouco demais e isso me impede de crescer.

Aonde eu quero chegar com isso? É um anúncio de que vou parar de escrever? Não. Na verdade é justamente o oposto. Espero que, após expor o problema, eu possa expiá-lo e passar a me levar menos a sério, pra poder ser um leitor e um escritor mais saudável e agradável. Poder fazer o certo. Ler, pensar, expressar, e integrar o ciclo. É assim que todo mundo faz. Não sou melhor nem pior do que ninguém pra não querer participar do jogo.

Pra quem chegou até aqui, este é só um post-desabafo. Não há nenhuma revelação, nenhuma piadinha, nenhum link legal pra reparar seu desapontamento. É a só a constatação de uma situação, e as consequentes impressões retiradas da mesma. Agora, com licença. Vou ler um pouco.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Direto da Redação

Saúde: Tem algo de errado nessa tal gripe suína, os especialistas dizem que a taxa de mortalidade é a mesma da gripe comum. Mas todos os dias o alarde feito em torno da doença é maior. Pergunta: por quê? Afinal, a gripe do vírus A H1N1 está sendo subestimada ou superestimada?
Uma forma de saber seria divulgando o número de casos e mortes pela gripe comum também, mesmo que uma estimativa. Não dá pra comparar doenças sem conhecê-las por completo.

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Esporte I: O Botafogo venceu o Inter-RS no sábado com um placar de 3x2. Depois de três jogos em que saiu na frente e deixou o adversário empatar, o Glorioso quase manteve a sina ao permitir dois gols do time gaúcho em 18 minutos. Não fosse o gol de desempate de Alessandro, o alvinegro ainda estaria na zona de rebaixamento. Há que se destacar um fato, porém: mais uma vez a arbitragem prejudicou o Botafogo, marcando um pênalti não-existente. A diferença é que, desta vez, a equipe foi competente para vencer adversário e juiz. Contra Flamengo e Náutico, o Botafogo até jogou um pouco melhor que ambos, mas não superava a 'qualidade técnica' de árbitros e bandeirinhas.

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Esporte II: Desde a semana passada, temos assistido ao Mundial de Natação em Roma. E a história é sempre a mesma: muito ufanismo e pouca medalha. Não, não me entendam mal. Não estou cobrando de nossos atletas um desempenho similar ao de colegas americanos, australianos e franceses. A natação brasileira evoluiu imensamente nos últimos anos, mas ainda temos um bom caminho a percorrer. Meu recado é para a imprensa, que cisma em tratar o Brasil como potência em qualquer esporte. Isso está longe de refletir a realidade e cria um ambiente em que o próprio torcedor não admite uma derrota que, se pensada de forma sensata, era óbvia. Esse tipo de pressão prejudica o esporte... ou vocês acham que o Diego Hyppolito adorou ter sido chamado de amarelão depois da queda em Pequim. Ou vocês acham que o Guga morreu de felicidade na época em que, por conta de sucessivas lesões, ainda tinha que ouvir piadinhas de que estava bichado. Enquanto isso, nós assistimos aos nossos políticos defenderem o nepotismo e nosso presidente reivindicar tratamento diferenciado para brasileiros 'mais' e 'menos' importantes, enquanto deveriam estar investindo na formação de atletas e, acima de tudo, seres humanos.

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Tecnologia: Darei um voto de confiança ao Windows 7. Tenho o desprazer de utilizar máquinas com Windows Vista, capazes de fazer processadores dual-core e 4GB de memória parecerem pouco. Na verdade, a qualidade maior do Vista é fazer o usuário enlouquecer de fúria.
Mas (esse 'mas' volta depois)... a Microsoft demorou pra chegar a um bom sistema operacional. Até hoje eu lembro do sonzinho de inicialização dos Windows 95 e 98. Isso porque eu era obrigado a reiniciá-los tantas vezes que a musiquinha ficou na cabeça. Depois vieram o Me, o 2000, até que chegamos ao XP, o mais próximo que tivemos de um Windows bom.
Francamente, o XP é sim, um bom S.O. E isto ficou comprovado com o lançamento do Vista, que tem muitos avanços (o sistema de busca é ótimo), mas que só podem ser sentidos em computadores que ainda não foram inventados.
Mas... (olha o 'mas' aí!) a Microsoft é famosa por trabalhar na base da tentativa e do erro. Eles tentam, erram, consertam, erram de novo, consertam o conserto e, assim, vai construindo seu império. Portanto, meu voto de confiança para o Windows 7 vai pelo simples fato de que o Vista é um parque de diversões tão grande de erros, que os engenheiros mal terão por onde começar a consertar.

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Imprensa: As 'notícias' acima foram escritas depois de remoer uma discussão que tive com a minha mãe sobre a não-obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão. Eu apoio a queda da lei, ela acredita que só o diploma pode garantir a boa qualidade da informação. Como parte de seu argumento, ela usou um artifício típico da imprensa: tentou manipular meu discurso para fazer parecer que eu era contra a educação superior. Tudo bem, eu faço o mesmo aqui e agora: manipulo o discurso dela pra fazer parecer que ela me acusou da forma como eu falei. Jornalismo é isso: parcial, opinativo, humano. Agora, o dado empírico: acabo de escrever textos jornalísticos, mesmo não tendo diploma de jornalista, mesmo sequer estudando jornalismo. Devo ser punido por isso? Vamos lá.
O maior patrimônio de um jornalista é sua credibilidade. Se ele realiza bem o seu trabalho, seu patrimônio aumenta ou se mantém intacto. Caso contrário, ele perde influência e pode até cair em desgraça. A faculdade de jornalismo ensina ao profissional os métodos de verificação e geração de notícias que permitam manter a relação de confiança com o leitor. Se o cara não tem essa bagagem, cedo ou tarde vai errar, e sua credibilidade sofrerá um golpe. Essa é a importância da faculdade: ensinar método, ética. Sem estes elementos, o jornalista não é competente e confiável.
E por que eu defendo a não-obrigatoriedade do diploma?
Porque não cabe ao governo decidir em quem eu devo confiar para receber uma informação. Sou eu, o leitor/espectador. Isso é liberdade de expressão em sua mais pura forma. Você leu o meu 'clipping'. Garanto a você que foi escrito com a maior sinceridade e parcialidade possível (parcialidade, sim). Se achar que foram notícias de qualidade, minha credibilidade aumenta e minha audiência também. Caso contrário, moscas para este blog.
Sem contar o fato de que diploma não é garantia de profissionalismo. Na era da internet, a gente vê como alguns 'grandes' jornalistas não são tão grandes assim. De muitos pequenos, então, nem se fala. O contrário também vale: o trabalho do Drauzio Varella é ou não jornalismo? É ou não um ótimo jornalismo? Usei ele como exemplo, mas há uma quantidade enorme de especialistas que conseguem traduzir perfeitamente para o grande público os assuntos com os quais tratam.

No meu caso, vale um pequeno parágrafo sobre minha breve carreira jornalística. Como tenho autocrítica, aviso de antemão que, se quiser fazer isso profissionalmente, cursarei a faculdade, obterei meu diploma e aprenderei como praticar o jornalismo da forma mais honesta possível. Não pela força da lei, mas em respeito ao leitor.

Boa noite.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Não!

O blog não morreu...









Só queria deixar isso claro

domingo, 31 de maio de 2009

O porta-vozes

Era muito propenso a frases de efeito. Sua cabeceira era lotada de livros de auto-ajuda e sabedoria chinesa. Sua inteligência e capacidade de resolver problemas eram condicionados à memória que tinha de frases impactantes e famosas. Justiça seja feita, neste quesito era catedrático. Quando a fábrica foi à falência, lembrou-se de Nietzsche: "O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte". Reergueu-se. Após anos de boemia, lembrou-se de Quintana: "Amar é mudar a alma de casa". Casou-se. Irritou suas colegas ao repetir Nelson Rodrigues: "As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado".

Mas era uma pessoa amável. Bom orador, tomava para si as responsabilidades coletivas. Discursou em pátios, organizou passeatas, liderou greves. Com a ajuda involuntária de Herbert de Souza:
— A tecnologia moderna é capaz de realizar a produção sem emprego. O diabo é que a economia moderna não consegue inventar o consumo sem salário!

Conquistou o amor e o respeito dos filhos educando-os com base em sua filosofia:
— Uma geração constrói uma estrada por onde a outra trafega.

E como trabalhou, e como construiu. Seus filhos se formaram, formaram outras famílias e veem o pai como uma espécie de bússola moral. Como diria Sócrates:
— Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.

Até o dia em que ele descobriu a seguinte frase:
"A vida é boa". (Machado de Assis)
Reza a lenda que esta foi a última frase proferida pelo Mago do Cosme Velho, em seus minutos derradeiros após o sofrimento de um câncer na boca.

Frase tão simples o tocou tão profundamente, que decidiu fazer dela, também, suas palavras finais. Machado de Assis é genial até na hora de morrer. Como é possível alguém que vislumbre com tamanha clareza a aproximação do fim e consiga ter inspiração para abalar vidas?

Pois foi o que acabara de ocorrer. "A vida é boa", dizia todas as noites, antes de dormir. Nunca se sabe quando a Indesejável lhe faria uma visita. Quando teve o ataque cardíaco, fez tamanho esforço para dizer as palavras que por pouco não resistiu de fato. Foi assaltado, mas só sabia dizer "A vida é boa" para os bandidos que, irritados, deram-lhe chutes e tapas e só não o mataram em respeito às suas rugas e cabelos brancos.

Hoje, porém, os médicos estão desacreditados. Sua doença progride rapidamente. Os remédios já não controlam as dores e os filhos sofrem ao ver um grande homem definhando. Mas a admiração que todos no hospital têm por ele é a mesma que conhecidos de outros tempos tinham. Já não pode mais comer, já não pode mais respirar sozinho, já não pode mais se mover sem sentir dores, mas nunca deixa de dizer:
— A vida é boa.

domingo, 10 de maio de 2009

Pelo Avesso

Há muito, muito tempo guardo isso pra mim. Evito entrar no mérito da questão pelo simples motivo de que, por mais que eu esteja certo (e estou, não duvide), para os novos criadores de dogmas eu sempre estarei errado. Eu e uma corja de 'direitistas', 'reacionários', 'racistas' etc. para ficar nas ofensas acadêmicas.

Mas ontem foi a gota d'água. Estava eu na livraria, folheando uns livros, vendo o preço de CDs e DVDs (pela hora da morte) até que minha atenção se voltou para o nome de uma autora que gosto muito: Agatha Christie. O nome do livro era 'E não sobrou nenhum'. Até aí, nada demais. O estarrecedor era o que estava escrito em letras menores, quase como um subtítulo:

"Anteriormente publicado como 'O Caso dos Dez Negrinhos'".

Não, eu pensei. Deve haver um erro de redação aí. Talvez eles quisessem dizer "Publicado anteriormente a 'O Caso dos Dez Negrinhos'". Virei o livro e li a contracapa. Onde deveria haver:

"Dez negrinhos vão jantar enquanto não choveUm deles se engasgou e então ficaram nove"

Havia:

"Dez soldadinhos vão jantar enquanto não choveUm deles se engasgou e então ficaram nove"

As duas versões do livro da discórdia: em uma edição de 1981 e a nova, publicada no começo de 2009.

Incrédulo, larguei o livro na prateleira e parei para pensar a que ponto chegamos.

Para quem não conhece, este é um dos romances de maior sucesso da escritora, cujo título é inspirado em uma historieta infantil inglesa, onde cada um dos negrinhos do título acaba morrendo de forma brutal até que... não sobra nenhum. Bom, não vou discutir a adequação deste poema a crianças, mas o fato é que, Agatha Christie usou-o, sim, como fonte de inspiração para sua obra-prima. Lançado com o título original 'Ten little niggers' em 1939, enfrentou resistência nos Estados Unidos já em 1940, quando recebeu o nome 'And then there were none' para entrar neste mercado. Na maioria dos outros países, no Brasil inclusive, traduziu-se o título britânico. Até o ano de 2009, quando a praga do politicamente correto resolveu que a censura é a melhor maneira de alçar uma causa ao sucesso.

A América da década de 40 (me corrija, Psicopata, se eu estiver errado) era um país onde o racismo era política institucional, e os primeiros e tímidos passos em direção à igualdade racial estavam sendo dados. Em um ambiente como aquele, seria natural que termos como 'nigger', que ainda hoje é considerado um xingamento por aquelas bandas, fosse banido. O que não justifica a mudança do título aqui.

Será que ser chamado de 'negro' no Brasil também é xingamento? Ainda não (por enquanto, e pra algumas pessoas), mas o fato é que nós estamos andando para trás e colocando em prática aqui o racismo institucional. Às avessas, mas pronto pra gerar o mesmo ódio e intolerância que este tipo de política sempre gerou. Todo dia a gente vê uma cota aqui, uma ação afirmativa ali, não raro patrocinado pelo governo. Sempre com o argumento de que é uma forma de reparar o mal causado pelas elites burguesas ao bravo negro trabalhador.

Mudarão também a nossa cultura, o nosso folclore: com vocês, o Afrodescendentezinho do Pastoreio

Levar isto à arte, no entanto supera largamente os limites do tolerável. Nosso 'Boi da Cara Preta' virou 'Boi do Piauí' em algumas escolas, sabiam? Escolas! Daqui a pouco vão queimar livros. Vai acontecer uma nova Revolução Cultural, uma Revolução Cultural Racial. Mas os afrodescendentes (o termo 'negro' será proibido) continuarão a receber olhares desconfiados por onde passarem e as piadas racistas continuarão a ser contadas pelas mesmas pessoas que defendem a política racialista. Porque não ter preconceito no papel é muito fácil. Na vida real é mais fácil ser hipócrita.

Aliás, que raios de defesa dos negros é essa em que tudo relacionado à raça deve ser suavizado? Será que ser negro é algo tão abominável que se faz necessário o uso de eufemismos? Ah, pelo amor de Deus. Pior é ver que essa tendência é mundial. Digo, ocidental, pois no oriente médio os judeus e os muçulmanos estão mais preocupados em se aniquilar.

A única coisa boa dessa história é que, só vendo tudo virado pelo avesso é que podemos perceber que, pelo avesso, somos todos iguais. Esse tipo de absurdo nos faz observar o óbvio. E a noção do óbvio é o que mais faz falta no momento.

sábado, 11 de abril de 2009

O Guia do Mochileiro da Baixada

"Fala aí, eu queria uma mochila com muitos³ compartimentos!"

Não, não é um post turístico. Mas depois de quase quatro horas andando nas lojas e shoppings da cosmopolita Nova Iguaçu, sinto-me em condições de opinar sobre mochilas de subgrifes e lojas que vendem tais objetos tão importantes para nossa sobrevivência.

Esta fábula começou há dois anos, quando percebi que a mochila caríssima (para os meus padrões) que eu havia comprado era de uma qualidade decepcionante. Pelo preço que paguei, eu substituiria o decepcionante por ultrajante. Não citarei a devida marca pois ainda adoro seus produtos (menos as mochilas) e acredito que este fato isolado foi apenas um momento infeliz do meu relacionamento com a loja.

Você deve, então, se perguntar por que eu fiquei dois anos com uma mochila se, já nos primeiros dias ela dava sinais de que não suportaria ser usada pelo ser mais desastrado do mundo (supondo que esse ser seja eu). É que, ao contrário dela, aguentei bravamente as trocas de zíperes, as costuras e os remendos. Mas chegou um momento em que não dava mais. Seria de crueldade sem par submetê-la a outra cirurgia para consertar o maldito bolso da frente.

Então, há duas semanas fui procurar uma mochila nessas lojinhas de rua. Aquelas você deve evitar passar em frente, caso contrário, os vendedores te puxam pra dentro e te tratam como amigos de infância, tipo:
- Coé, irmãozinho! Não quer ver essa super-bermuda estampada, não? - ele diz, mostrando uma daquelas figuras de ilusão de ótica em formato de bermuda.
Apesar de ir contra meus valores e princípios, essas lojas têm muitas mochilas de boa qualidade, e era disso que eu precisava.
O vendedor me mostrou uma muito boa, perfeita para minhas necessidades e com um preço bom. Só havia um problema: sem grana e o limite no cartão quase estourando. O jeito era esperar:
- Sabe como é, cara, eu vou dar mais uma volta e qualquer coisa eu apareço. - pra não dizer: "Sou pobre, me paga um lanche?"
- Pô, irmãozinho. Corre que essa é a última.

Engraçado que quando a gente fala que vai dar mais uma volta eles sempre mandam essa de "a última". Só que ele não estava mentindo. Quando eu voltei a mochila perfeita já não estava lá. Tudo bem que eu só voltei depois de duas semanas, mas isso não exclui a possibilidade de aquela ter sido realmente a última. O que fiz? Fui ao shopping procurar mais. Entrei numa loja conhecida, onde já havia comprado uma mochila, mas quando estava na sexta ou sétima série. A vendedora, muito simpática, me mostrou vários modelos. Todos legais, todos dentro do meu orçamento, mas nenhum igual à mochila perdida. Até que ela, meio hesitante, falou:
- Vendemos também as multimarcas, que você deve saber que são mais caras.
Foi a minha vez de hesitar:
- Tudo bem, eu queria dar uma olhada.
Eu detesto coisas de pseudogrifes, tipo Billabong, Reef etc. Primeiro porque são caras, segundo porque são espalhafatosas, terceiro, porque são caras e espalhafatosas. Mas ela me mostrou uma mochila que conseguia ser melhor que a minha favorita anterior, preta, compacta, muitos compartimentos, de uma marca pouco conhecida chamada Element. Perfeita. Preço:
- 180 reais.
Não estava em meus planos. Ela reparou:
- Mas posso ver um desconto aqui pra você.
"Legal, vai pra 170...", pensei. E ela volta:
- Te dou 30% de desconto no dinheiro!
Não consegui esconder minha surpresa. Ela reparou:
- Ainda fica meio pesado?
O desconto me seduziu, mas eu não queria demonstrar:
- É, um pouco, e eu não queria mochila de marca, chama muito a atenção, sabe? Eu vou andar com ela pra muitos lugares e talz... acho que vou dar mais uma volta aqui por aí...
- Você pode procurar, mas vai acabar voltando. - ela disse, e eu me assustei.
Só faltou dizer: "Seu destino está traçado..."

Realmente, 30% de desconto era tentador. Com isso, o preço da mochila cairia para um valor aproximado ao que eu havia pago pela mochila velha. Não era vantagem nenhuma, mas ao menos cabia no meu orçamento.
Com os 30% na cabeça, visitei dezenas de outras lojas de tchutchuca, com mochilas iguais às bermudas e os vendedores tentando me convencer:

- Poxa, essa daqui tem muitas divisórias.
"30%"

- Essa é de ótima qualidade.
"Não adianta procurar, você não vai encontrar melhor"

- Poxa, super-discreta, essa estampa hipnótica, cheia de listras, pontos, xadrez, ilustrações é preta-e-branca, dá pra usar em qualquer lugar.
"Consigo esse desconto, mas só pra hoje"

Quando eu cheguei na loja mais tchutchuca de todas, percebi que atingira o fundo do poço. Uma vendedora me recepcionou, enquanto a outra ficou na porta dançando funk. Ambas devidamente vestidas para matar, ou seja, jeans apertados, aquelas blusas tomara-que-caia que têm as formas dos seios, não sei explicar direito. Enfim, bem potranca mesmo. Elas me mostraram as mochilas e eu, cada vez mais desconfortável com o ambiente e com a música, disse que nenhuma delas atendia às minhas necessidades.

Dei o braço a torcer. A menina estava certa. Reconheci minha derrota e retornei ao campo inimigo. Desta vez quem se surpreendeu foi a legião de vendedores. Tentando disfarçar, ela disse: "Eu falei que você não encontraria melhor."
Enquanto eu entrava na loja pra pagar o produto e levar a mochila, entreouvi um trecho de uma conversa entre a gerente e um outro vendedor:
- ...jeitinho humilde...
- É, cara de morador de Austin.

Foi quando caiu a ficha:

CARA DE POBRE!

Era óbvio que eles me deram 30% de desconto porque acreditaram que eu não iria levar. Safados!!! Me trataram bem, esperando que eu comprasse uma pulseira, pelo menos, e resolveram brincar com os meus sentimentos uhauhahaauauhauha. Minha mente diabólica começou a funcionar alucinadamente, eu sentia necessidade de me divertir com aquilo.
Enquando a vendedora embrulhava a mochila, ia falando:
- Você tem que ver que nem sempre a gente pode se ligar no preço...
- É, eu sei, mas já tive várias mochilas de marca que não resistiram nada - dei o golpe certeiro.
- Você tem que ver que nem sempre a gente pode se ligar na marca...
- Nem fala, eu tenho um monte delas em casa que hoje estão completamente acabadas. Elas não prestam, a gente paga um preço alto esperando levar qualidade e só se decepciona. Por isso eu decidi que só compraria mochilas baratas.
- Mas essa é boa, você viu, né? - Percebi um tantinho de desespero, ao ver que a compra seria realmente efetuada, e o playboyzinho de Nova Iguaçu iria lhe roubar parte da comissão.
- Não, essa é perfeita.
- Ai, que ótimo - Quase chorando...

A caixa, assim como eu, ficou surpresa ao conhecer o valor do desconto:
- Trinta por cento?
- É, ele é cliente VIP.

E assim eu levo uma mochila boa, com um desconto ótimo, e ainda termino sendo chamado de cliente VIP.

Toda essa fábula pra dar uma dica de ouro aos leitores-consumidores, sobre como se portar em uma loja:

Entre com cara de pobre, saia com cara de rico.

Mesmo você não sendo nem uma coisa, muito menos outra. O que importa é que você termina o dia numa felicidade de dar gosto.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Supino reto, 15kg. Três séries de 12.

1º sinal - Algo vai mal: sua mãe te chama pra fazer exercícios físicos;
2º sinal - Sim, tem algo realmente mal: você faz exames caseiros de IMC e porcentagem de gordura e descobre que está na categoria de subdesnutrido, no jargão profissional;
3º sinal - Fim do mundo: você se vê num vídeo e percebe que, se estivesse ventando, voaria. E se estivesse de noite, você estaria usando um pijama com uma listra só.

E assim, eu fui parar na academia: lugar onde as pessoas cultuam o próprio corpo, suam loucamente, olham uns pros outros com inveja/cobiça/luxúria e ainda encontram tempo pra fazer exercícios físicos.

Antes de iniciar minha jornada, que já dura dois meses (sem muitos resultados visíveis), entrei na sala do médico para fazer alguns exames: pois é, estou realmente subdesnutrido, mas graças à academia, descobri que também tenho escoliose sinixtro-convexa, hiperlordose cervical, pés abdutos, inclinação leve da cabeça para a direita, entre outras tantas desregulagens. Valeu, academia!

Depois deste banho de auto-estima, iniciei as aulas com um professor muito gente boa que, prontamente, ensinou os movimentos de cada exercício que eu deveria fazer. Isso todos os dias, porque eu nunca decorava. Posso utilizar meu cérebro pra várias coisas, mas a região responsável por movimentos e coordenação motora ainda é um campo a ser desbravado.

Dez minutos de bicicleta depois, não sei se eram minhas pernas, meus pulmões ou meus ouvidos os que mais doíam, porque aguentar o revezamento música eletrônica - axé - trilha de novela é mais cansativo que uma maratona. Por isso eu levei meu MP4 nas aulas seguintes. Aproveitei o período de carnaval e coloquei sambas-enredo pra escutar. É legal porque como quase todos os sambas têm uma divisão entre versos e refrões parecidas, fica mais fácil calcular quanto tempo falta pra série terminar.

Na esteira, porém, o samba não é muito indicado. Afinal, ele foi feito pra sambar, não pra correr. Nesse caso eu indico rocks alternativos bem dançantes, estilo Arctic Monkeys.
Tá, já esses foram feitos pra dançar, não pra correr, mas vai por mim, funciona direitinho sim ^^.

Depois do aquecimento, vem a musculação em si, onde eu me sinto um pouco ridículo por arfar no levantamento de pesos de 4kg. Mas é só olhar pro lado e ver aquele tio fazendo exercícios pros glúteos que eu percebo que pelo menos eu tenho senso do ridículo.

Por volta de 40 minutos depois, série terminada, vem a parte mais humilhante: o alongamento. Humilhante porque os professores nos colocam em cada posição que me faz lembrar aqueles caras do canal de kama-sutra, digo, vale-tudo. E porque eu também não sou bom em alongamento. Sequer consigo encostar a mão na ponta dos pés sem dobrar os joelhos. Quanto ao primeiro problema, eu tentei uma solução: procurar uma professora e me alongar com ela. Depois que ela quase me partiu no meio, eu parei com essa besteira de escolher hehehe ^^"
Com o professor o embaraço é maior, mas a dor é menor.

Enfim, como vocês devem ter percebido, estou exultante nesta fase da minha vida. E ainda tenho dois meses a frequentar, pois paguei adiantado (IUPIII!!!). Agora eu tenho que me retirar, pois só escrevi esse texto como modo de postergar minha ida. Mas não dá mais pra enrolar, né? Até depois do açaí.

Abaixo, o que nossos amigos Conspirados estão achando da minha nova empreitada.

'Eu também estou fazendo exercícios. Não vê que eu já estou com ombros?'
O Chato, tão iludido quanto eu.


'Gosto de você magrelinho desse jeito.'
A Psicopata, obrigado pela parte que me toca.

'Legal, agora você pode conversar com O Esquisito sobre academia, levantamento de pesos etc.'
A Vilã, sem o menor tom de deboche.


'Quanto é? (...) Que caro!'
O Esquisito, me dando apoio.

'Se ele é uma gracinha assim, imagina quando ficar gostoso?'
O Idiota, prefiro não comentar... ¬¬

' (...) '
A Interesseira, enquanto apalpa meu "peitoral" (põe aspas nisso)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Assassinaram o Carnaval, é Carnaval o ano inteiro.

Começou assim: Nos primórdios da civilização, nossos ancestrais egípcios festejavam a época da colheita, que promovia a fartura e a fertilidade nas cidades à beira do Nilo. Mais tarde, os gregos mantiveram a essência do festejo, acrescentando outros elementos inocentes, como bebedeiras, bacanais, e todo tipo de prazer despudorado e ilimitado. Desfiles ocorriam pelas ruas, a euforia tomava conta das pessoas, escolas fechavam as portas, escravos eram temporariamente alforriados, a liberdade era total.

Depois, Nosso Senhor Jesus Cristo (para os que são cristãos, obviamente) foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos Céus e transformou este acontecimento na data mais importante do calendário cristão, religião praticada atualmente por aproximadamente 2 bilhões de pessoas.

Estes parágrafos aparentemente desconexos não teriam relação alguma, não fosse o sincretismo religioso que a evolução da sociedade proporciona. As festas pagãs que começaram há seis milênios foram recebendo influências de povos e épocas distintas e existem até hoje, conhecidas pelo nome milenar de carnaval. Já a ressurreição de Cristo é comemorada na mesma época em que os judeus comemoram sua libertação do Egito e a passagem para a terra prometida. Além da data, ambos os fatos recebem a mesma denominação: páscoa.

Ocorrida no primeiro domingo depois do primeiro equinócio do ano, normalmente em março ou abril, a Páscoa é precedida por um período de penitências e privações, uma forma lembrar o sacrifício de Jesus para salvar a raça humana e dar-lhe a oportunidade de viver no Paraíso ao lado de Deus. Este período, chamado quaresma, como o próprio nome sugere, dura quarenta dias (quarenta e seis, pra ser mais preciso). O início da quaresma coincide justamente com a festa da carne, o carnaval.

Só pra deixar as coisas claras: eu, cristão, comemoro a páscoa em abril. Antes disso, passo quarenta dias fazendo jejum de vários tipos de bebidas e alimentos e pago penitências por meus pecados. Antes disso, eu sei que tem uma festa chamada carnaval, conhecida pelo liberou geral. Eu posso beber o que quiser, comer o que e quem quiser, extravasar (como diz certa cantora de... carnaval) todos os sentimentos reprimidos pela pesada mão da Igreja etc. Sejamos sinceros. É juntar a fome com a (literal) vontade de comer. O carnaval é agregado ao calendário cristão, como um festejo que antecede o "retiro espiritual" que é a quaresma, cujo ápice acontece no fim da Semana Santa.

Resumo porco: eu, cristão, aproveito o tal carnaval pra barbarizar, já que eu vou passar por quarenta dias de sofrimento na tentativa de salvar essa minha alma pecadora. Mais humano que isso, impossível.

Pulemos então aos dias de hoje. A Idade média chegou ao fim, a quaresma mudou, o carnaval mudou, mas a sensação de "liberdade" que ele proporciona ainda é palpável na maioria dos foliões. Aí eu pergunto: que liberdade? O que a gente pode fazer no carnaval que não pode fazer na quaresma ou em qualquer outra época do ano? Num devaneio surrealista, se fosse na Idade Média, ver a rainha da bateria peladona no carnaval seria uma atitude típica da festa. Pessoas fazendo sexo louca e irresponsavelmente também. Comilanças e bebedeiras seriam o símbolo de uma data.

Mas hoje isso é comum todo dia. A gente não faz mais jejum na quaresma. A gente não se empanturra só no carnaval. A rainha da bateria não causa furor se aparecer peladona no carnaval porque ela já faz isso o ano inteiro. O carnaval é, hoje, só mais um feriado prolongado. Com a pequena diferença de que as pessoas tentam ser um pouco mais indecentes que no resto do ano uhahuahuahuahua. Mas é um pouco, só.

Antes que me interpretem equivocadamente, eu não estou fazendo uma crítica puritana. Somente uma reflexão. Não quero uma volta da quaresma e da Idade Média. Posso não ser um entusiasta dessa pretensa "liberdade" pós-moderna, mas sei bem o valor do carnaval que temos. Meu problema não é o Carnaval, pelo contrário, é o resto do ano. É essa "liberdade" carnavalesca que inventaram e te obrigam a exercê-la nos 365 dias e 6 horas da translação em torno do sol. É preciso beber como se fosse carnaval, se drogar como se fosse carnaval, fazer sexo como se fosse carnaval. Caso contrário, você não é livre. É um oprimido, um reprimido. Ah, pro inferno essa gente! Isso sim é repressão. Se eu sou livre, posso escolher não viver essa existência vazia travestida de subversão contestadora. Isso colava na década de 60, hoje não cola mais.

Dito isto, hoje tiro o meu chapéu de bamba pra alguns evangélicos que eu conheço. Eles pecam o ano inteiro, e aproveitam o carnaval pra fazer o tal retiro espiritual. Isso sim é ser subversivo de verdade. Boa folia pra quem chegou até aqui.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Rapid Eye Yaw

A metade final desta estória.

Ela me olhava, eu retribuía. Não falávamos, só havia sorrisos. Será que ela me perdoaria por mentir? Não sei. A "câmera" se afastou com firmeza, enquanto eu me debatia desesperadoramente para ficar e assistir àquela cena. [Agonia - Se for a própria: boa saúde e longevidade.] Quando finalmente desisti, percebi que estava percorrendo todo o trem. A luz azulada, as pessoas cinzentas, cumprindo com perfeição seu papel de figurantes. Finalmente, o interior do trem escapa de meus olhos. Saíra para a noite escura. [Noite - Muito escura: tristezas. O sonho com noite revela que seus planos são perigosos.] O asfalto estava molhado, mas não chovia. Na longa estrada, as luzes dos carros percorriam friamente a trajetória melancólica imposta pela madrugada onírica. [Estrada - Se for de dia: felicidade. À noite: perseguição de superior ou rival.]

Quando vejo, estou dentro de um ônibus dando informações a uma velhinha e pedindo informações sobre como chegar ao Sesc Queimados a um homem com olhos estranhamente leitosos que, por conta da escuridão, tardiamente percebi que era cego. [Cego- É sinal de que deve tomar cuidado com negócios duvidosos.] Enquanto o cego balbuciava palavras sem o menor sentido, me afastei. Havia ficado com a impressão de que não é sensato pedir direções a um cego. Segui em direção ao motorista, enquanto o ônibus subia um viaduto. [Ônibus - Sucesso passageiro ou desejo de mudar de vida.]
Antes da conversa surreal com o motorista, algumas incongruências:
1 - Não existe Sesc em Queimados;
2 - Cegos são tão bons, quando não melhores, em dar direções quanto qualquer pessoa. Acredite, sei por experiência própria.
Para isso tenho também algumas explicações:
1 - Devo ter sonhado com Sesc pois ultimamente tenho precisado de uma piscina e uma biblioteca. O primeiro lugar que me veio à cabeça foi o Sesc e este deve ter ficado perdido nas profundezas do meu inconsciente. Queimados porque conversei com minha prima sobre uma oportunidade de estágio neste bucólico município.
2 - Tenho um amigo cego que ensinou o motorista de Táxi a chegar no ponto de seu ônibus (na Central do Brasil!) e seguiu viagem às 22h da noite pois tinha que ir a uma festa junina em sua cidade, Engenheiro Paulo de Frontein. A mim, só restou o papel de olhar boquiaberto. Dá-lhe Big Paulo!
Vocês sabem, em sonho a gente mistura tudo, logo as explicações que dei são plausíveis. Plausível não é o que vem agora:
- Por favor, o senhor pode parar no Sesc Queimados - Perguntei ao motorista.
- Poxa, era antes do viaduto - ele disse enquanto fazia uma curva bem longa e eu me segurava para não cair.
- Que droga... - lamentei - e que ônibus eu pego para voltar?
O motorista foi bastante prestativo e me disse o nome de todos os ônibus possíveis e onde descer. E emendou:
- Mas se o senhor quiser...
- Preciso ir à parada gay. [Homossexual - Recuperação de dinheiro perdido. Conversar ou ter contato com um: controle seus impulsos e paixões sexuais.]
- ...
- ...
Se meu sonho tivesse platéia, o silêncio do motorista e a expressão impagável e indescritível dele sria a claque para as risadas. Nunca saberei a continuação do "mas se o senhor quiser...", nem por que eu quereria ir à parada gay no Sesc Queimados, pois na "cena" seguinte, como em um filme, eu já estava na porta do ônibus, do lado de fora, ao lado de uma mulher (feia) que se dirigia a mim com um olhar piedoso enquanto o motorista lhe dava instruções:
- Ensine ao rapaz como chegar no Sesc Queimados.
A porta se fechou e o ônibus diminuía de tamanho enquanto ia desaparecendo na estrada. Tudo estava deserto. [Deserto - Perigo de rompimento amoroso. Pode ser também que amigos fiéis o socorrerão nos problemas.] Só estávamos eu e a mocréia, esperando um ônibus que não viria.
Acordo.
Volto à minha vida sem irmão gêmeo, sem mulher linda, sem mulher feia, sem parada gay nem Sesc Queimados. Só tenho um sonho movimentado (um sonho mesmo, não dois xD), um teclado e um blog. É o suficiente, por enquanto.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Rapid Eye Movement

Fecho os olhos. Minutos depois (ou horas, não sei) eu os abro e surge defronte de mim uma estação de trem. Várias composições param e andam, num vaivém eterno [Trem - Se se vê passar um trem, é sinal de notícias, boas, se o trem é rápido e mostra vagões novos; más notícias, se aparecer lento, velho e sujo. É sempre sinal de algo novo na vida: viagem, empreendimento, separação]. E eu espero. Os trens só aparecem na direção oposta à que eu quero seguir. Finalmente encontro a mulher do qual meu irmão gêmeo falou. [Gêmeos - Indica de modo geral que a pessoa deve ter cuidado com conselhos de falsos amigos; as vezes as coisas parecem caminhar de uma forma e no fundo é o oposto, desconfie de conselhos] Era realmente linda. Era realmente fácil se apaixonar à primeira vista por ela. Meu irmão o fez ontem. Eu, hoje. [Mulher desconhecida: esperanças. Se ela o agradar: espere dias felizes. Feia ou rabugenta: mentiras]

Agora, percebo algumas incongrências, que não reparei naquele instante:
1 - Eu não tenho irmão gêmeo;
2 - Não costumo me apaixonar à primeira vista. Na maior parte das vezes, nem à segunda.
No entanto, para estas questões, tenho algumas explicações:
1 - Como não aparece em carne e osso, este irmão gêmeo foi provavelmente criado como personagem que meu "eu" do sonho revisitou em seus pensamentos. Sim, eu penso enquanto durmo. Você também, né?
2 - Recentemente eu realmente vi uma mulher linda no trem e ela demorou a sair dos meus pensamentos. Mas não era paixão. Na verdade eu pensava nela em situações bem pouco cristãs, mas acho que essa parte pode ser suprimida hehehe;

- Ela é linda e também está apaixonada por mim - ele me disse. [Amar - Se é você quem ama: pode sentir angústia. Ser amado: satisfações. Se for correspondido: você tem rival]
- Mas isso é errado, eu não posso encontrá-la em seu lugar - eu estava receoso. [Amor - Amor proibido: segredinhos. Em geral tem relação com frustrações e sonhos não realizados]
Meu irmão não se deu por vencido:
- Mas você precisa! Nós marcamos amanhã na estação, só que eu esqueci que eu tenho um jantar com a minha namorada.[Infidelidade - Às vezes, é aviso de obstáculos na vida amorosa]
Mau-caráter. Como pode dividirmos o mesmo DNA? Para completar a exibição de canalhice, ele finalizou.
- Só não vai se apaixonar por ela. Ela é minha. [Bigamia - Cometer bigamia: felicidade amorosa. Ser bígamo: boa vida conjugal. Não ser bígamo: muito dinheiro]
- Não se preocupe, eu vou a seu tal encontro, e nunca me apaixono à primeira vista... [Traição - Insegurança. Traição de amigo: surpresas. De amor: obstáculos]

E lá eu estava, como um bobo, observando a beleza dela. O seu sorriso. A forma como ela balançava os cabelos ao falar. Me sentia no céu por estar com ela e no inferno por enganá-la e também por quebrar a promessa que fizera ao meu irmão. Nos apaixonamos pela mesma mulher. Ele acabara de se tornar meu rival.

(continua...) - sempre quis escrever isso hehehehehe

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Todo mundo foi criança um dia

Tenho em mente versos que, de tão belos, marcam o meu caráter de forma indelével. Nada muito rebuscado, pelo contrário. A genialidade deles se mostra justamente por sua capacidade de emocionar sem precisar de um dicionário ao lado. Alguns destes vêm de uma das canções mais cantadas e recantadas da história da MPB. De Caetano Veloso, imortalizada pelo próprio e pelo rei Roberto Carlos.

"Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga"

Infelizmente, o tempo deixa de parar a partir do momento em que o descobrimos e passamos a acompanhar sua trajetória. O tempo nos molda, nos torna mais sábios, mais belos (por que não?), mais amargos, mais céticos, mais humanos. O tempo nos rouba a pureza, a energia, a vida. O tempo nos rouba o tempo.

O dado reconfortante é saber que há alguém dando a mínima atenção possível a este implacável. Muito perto da gente, na rua, numa praça, ou mesmo dentro de casa. É bonito ver aquele grupo pulando e gritando, com as têmporas suadas e as roupas sujas, brincando de todos os piques, todos os jogos, usando de toda imaginação possível e imaginável. Crianças. Estas o tempo não atinge.

Para uma criança, qualquer banalidade pode tranformar-se numa coisa lúdica. Brinquedos são maravilhosos, mas se eles não existem, não há problemas. Dê-lhes um caco de tijolo ou giz e eles fazem uma amarelinha. Ou fazem marcações no meio da rua pra brincar de bandeirinha ou queimada. Dê-lhes uma bola então! Que fascínio exerce esta esfera sobre o imaginário da criança. Imagino que o homem inventou a roda ao ver crianças jogando bola. Ou é possível que uma criança mesmo tenha inventado a roda.

A criança é aquela risada gostosa pelo motivo mais besta, é o medo de ser esquecido no ônibus, é a cara de culpa estampada no rosto depois de quebrar o enfeite da sala, é o esconder-se atrás da cortina com a certeza de que ninguém está vendo. Criança é a confirmação de que o tempo age, mas com elas tira férias.

"Se liga, pirralho: papai noel não existe, seus pais não te amam, e você não tem talento. Agora vai comprar uma cerveja"

Então, pais, soltem suas crianças nas ruas, nas praças, nos playgrounds, e até mesmo nas salas de estar. Mas, por favor, PAREM de levá-las aos programas de TV dominicais. Além de ser um saco, é constrangedor vê-las fazendo coisas de adultos que os próprios adultos consideram patéticas demais pra eles próprios fazerem. Crianças não têm tempo a perder. Poupem-nas (e poupem-nos) de Elianas, Faustões, Gugus etc. (uso estes exemplos pra ficarmos apenas nos domingos).

Bom, minha mensagem é essa.
Beijinho, beijinho, tchau, tchau.

O autor do Bozo é jawboneradio.