domingo, 17 de janeiro de 2010

Além do Arco-Íris

Eu nunca gostei de angu. Sempre preferi purê de batata. Talvez não há nenhuma ligação entre os dois pratos, a não ser o fato do meu irmão não gostar de purê de batata e preferir angu. Então aqui em casa, dia de angu, também era dia de purê de batata. Angu é meio nojento, meio mole, meio autônomo, se mistura com o arroz e chega num instante que não se come nem mais angu nem mais arroz. Como-se angu com arroz, tudo misturado. E como gosto da comida bem dividida no prato, prefiro purê de batata, que permite controlar melhor o que me sirvo.

Marrom não é cor. Marrom, bege, marfim ou qualquer cor cor-de-terra. Parece que falta luz. Parece ausência. E são normais, sem identidade. Tecidos com esses tingimentos são opacos, sapatos com essas tonalidades deixam tudo muito sério, coisa de adulto. Adulto velho. Aí também não gosto. Sempre preferi cores de verdade, cores que são cores. Olhe para o vermelho e veja como ele se identifica sempre radiante em qualquer ocasião. Ou o amarelo, roxo, coral. Com pouca luz, elas se destacam. Com muita luz, elas refletem ainda mais. O marrom não. Parece sempre meio sem graça onde quer que vá.

Também nunca gostei muito de mulher. Sempre me pareceu que faltava alguma coisa ali. E quando rolava revista de mulher pelada na escola, eu não vi a menor graça naquilo que meus coleguinhas comentavam com tanta vontade. Hoje eu entendo que aquela vontade se chama tesão. Mas eu fingia que sentia também a mesma coisa. Não sei se colava, mas fingia. Quando tinha alguma cena de quase-sexo na televisão e ocorria do meu pai estar assistindo comigo, me lembro que me perguntava "Queria ser ele ou ela?". Para mim, eu respondia "ela". Para ele, eu achava melhor não responder nada.

Não faço a menor ideia porque acabei por preferir purê de batata a angu, vermelho a marrom, homem a mulher. Mas foi ao longo dos anos. Certas coisas apenas foram parecendo melhores que as outras. E ponto.

5 comentários:

Hanna Corrêa disse...

Adorei o texto *-*
E o "E ponto."

:D

O Lerdo disse...

Eu gosto de angu e purê de batata. Prefiro angu levemente. Entre vermelho e marrom, fico com o verde, a outra cor que forma essa composição.
Isso quer dizer que... eu gosto de angu, purê de batata e verde. Mais nada.

O ser humano é um e são seis bilhões. Quando a gente entender que cada indivíduo tem um trilhão de nuances, talvez vejamos o absurdo que é dividir a humanidade em grupos e discriminar alguns deles pelas características em comum dos seus membros. Parabéns pelo debate. Eu faria outro post em resposta a esse. Mas acho que o que está escrito já fala por si.

Dari disse...

Pois é, concordo com o Lerdo.
Mania do ser humano de agrupar e taxar coisas... agrupam os animais em mamíferos, aves, peixes e blá blá blá pelas características comuns, aí vem o ornitorrinco e quebra com tudo... e aí eles chamam de exceção pra não dificultar as coisas, ou insistem em dizer que ele é mamífero.

texto sensacional, Jeff.

Ah e eu gosto de angu, mas só o que minha mãe faz e como separado do arroz. Tb não gosto de marrom, mas adoro cinza e gosto de homens.

Aline Costa disse...

Concordo com a Dari.
A escolha é de cada um. Ponto, finito.

Matheus Gaudard disse...

Concordo c/ a Dari... mania q temos de rotular alguém... Aff. Eu sou Gay, nem por isso sou diferente, fala sério. Sorriso é diferente da Colgate? É tudo propaganda para vender mais... no final das contas tudo é igual... só muda o preço.

Caramba... será q é difícil para as pessoas verem q eu sou gay, mas tenho o q todos homens têm entre as pernas... aff... Desculpa o comentário... rsrsrsrs