sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Linha de Impasse

Esta é uma resposta a meu amigo Conspirado O Idiota, que em seu blog prefere ser chamado de Jeff. Então tá, será Jeff. Eu poderia ter respondido nos comentários de seu post sobre sua crise cinematográfica e sobre como ele se sente mal por não achar Hitchcock tão o máximo assim (creio que outros amantes de cinema que passem pelo mesmo problema devam sentir-se exatamente iguais). Como não sou um amante tão incondicional de cinema, respondo que me sinto da mesma forma, mas com relação à música.

Em meu
último escrito, admiti que preferia ter sido um adolescente que curtiu todas as bandas que pessoas inteligentes e legais curtem. Seria o máximo delirar ao som de Pink Floyd, Led Zeppelin, Jethro Tull ou mesmo sem ir muito longe, ouvindo U2, Guns'n'Roses e Nirvana. Fiquei com Linkin Park, Evanescence e Pitty (os quais eu não renego, só gostaria de ter ido um pouco mais além). Assim como o Jeff reconhece as qualidades de Hitchcock, mas não consegue admirá-lo como tal, eu já ouvi e ainda ouço muita música boa de todos os medalhões do rock, mas nenhuma delas me fez adorá-los como "se deve". Também fico chateado quando não consigo gostar das bandas da moda, que todo mundo elogia e todo mundo ouve. É decepcionante ouvir um disco, cheio de expectativa e depois ver que os tais artistas nem são tudo isso. Pior é dizer isso pros amigos que indicaram. Meu alívio é que minha vida não é nem um pouco pior por causa disso. Nem melhor.

Mas a razão deste post não é falar sobre essas crises cinematográficas ou musicais. É um confrontamento de opiniões. Que já ocorreu ao vivo na saída do cinema, mas sem muitos argumentos embasados, ainda no calor do subir dos créditos. Falo de Linha de Passe, o filme mais recente dos diretores de Central do Brasil. Não sou muito de fazer comentários públicos sobre filmes. Não que eu não me ache capaz, mas há dois conspirados que entendem muito mais de cinema e qualquer coisa que eu fale pode parecer besteira. Desta vez eu não resisti, pois acho que nunca houve um choque de opiniões tão grande entre mim e O Idiota. Mesmo quando eu ainda defendo que Crash é melhor que Brokeback Mountain e, por isso, ele tem vontade de comer meu fígado.

Enfim, o filme. Eu gostaria de começar com alguma introdução sobre o tema periferia, pobreza, crimes etc. para ajudar a compor meu argumento, mas já estou tão enjoado e enojado das tantas visões pretensiosas e hipócritas sobre o assunto que nem vou perder meu tempo. Linha de Passe carrega consigo esse tipo de visão de uma forma que me fez concluir que atingimos um novo estágio na suposta luta do bem contra o mal, indo além do que já foi proposto em termos de explicações para a tragédia social que se abate no país. Aliás, nem além vai, somente amontoa todos os clichês que o assunto proporciona em pouco menos de duas horas de filme.

Temos a família formada por uma empregada doméstica, Cleuza, mãe de quatro filhos, grávida de outro. O primogênito Dênis, motoboy, pai de um menino, deve dois meses de pensão alimentícia porque precisa pagar a prestação da moto. O segundo, Dinho, frentista, evangélico, que "já deu muito trabalho à mãe". O terceiro, Dario, sonha ser jogador de futebol, mas passa por dificuldades em conseguir vaga em um clube, drama acentuado pela proximidade dos 18 anos, o que praticamente elimina suas chances de iniciar a carreira. E o mais jovem, o pequeno Reginaldo, revoltado por não conhecer o pai.

O filme, inteligentemente, esconde do espectador o passado e o futuro dos personagens. Esconder é a única coisa inteligente que o filme faz, inclusive. Pois o que é mostrado é uma sucessão de acontecimentos que mostram como a família retratada é desgraçada e como o mundo é responsável por isso. Para Walter Salles e Daniela Thomas ninguém presta, só eles. Nem os personagens principais escapam da sina criminosa que parece se abater sobre a humanidade. A diferença é que seus erros são justificados pela velha lenga-lenga de que a sociedade e as circunstâncias os obrigaram a errar. Se uma mulher sem condições de criar uma criança engravida da quinta, a culpa é da sociedade. E a maldita sociedade, representada pela patroa, não compreende isso. Se um jovem resolve roubar, não se trata de desvio de caráter, são as circunstâncias e as dificuldades que o levaram a cometer seus crimes. Se outro usa drogas, só pode ser porque foi influenciado pelos amiguinhos burgueses, ele é só uma vítima. A culpa é sempre dos outros.

Não acho que a miséria deva ser varrida pra debaixo do tapete. Mas esse tipo de discurso não leva a absolutamente nada. A vida de quem realmente está na condição de pobreza não sofre nenhuma melhoria por conta desses filmecos. Aliás, tende a piorar, porque sempre há emprego de dinheiro público nesses projetos. Ou seja, além de se verem explorados na tela, os pobres ainda precisam disputar com cineastas os caraminguás dos nossos impostos. Aliás, este é outro ponto sensível. Cineastas: querem falar de suas desgraças ou das desgraças alheias, querem fazer sua panfletagem, seu proselitismo? Façam, mas não com o meu dinheiro. É muito fácil usar o dinheiro dos outros pra dizer palavras vazias e depois dormir o sono dos justos, em suas coberturas nos Jardins, em Ipanema, ou em Paris, achando que suas mensagens "inovadoras" salvarão o mundo.

Sobre as atuações, a edição, a fotografia, não sou um profundo conhecedor, mas fiquei satisfeito. Tudo muito bem realizado, algumas cenas lindas, atores realizando um trabalho digno, como diz minha amiga Interesseira, e muitas imagens realmente legais, principalmente durante os momentos em que o futebol tem destaque. É uma pena ver tanta qualidade técnica a serviço de um mau-caratismo tão grande.

Linha de Passe - Nota: 2/10

Diante de divergência tão grande, eu recomendaria que vocês vissem o filme e tirassem suas próprias conclusões. Mas eu não recomendo não xD. Há coisa melhor por aí.

5 comentários:

Wagner disse...

Está vendo o por quê de eu não assistir a filme brasileiros? Se tivessem escolhido outro filme, eu teria ido e vocês aproveitariam minha companhia. xDDD

Helena disse...

onde eu assino?
o filme me decepcionou muito. A única parte que eu discordo de vc é sobre os atores, a mulher que interpreta a mãe eu achei bem ruinzinha (sim, ela ganhou o Cannes).

beijo!

O esquisito disse...

Os cinemas têm de respeitar a cota para filmes brasileiros, o que leva a uma enxurrada de filmes ruins
Não estou falando que filmes hollywoodanos sejam bons (ultimamente nenhum me atraiu e vi um péssimo - "Quase irmãos" - uma bosta), mas que muitos filmes brasileiros sempre batem no mesmo ponto:
pobreza, sexo, palavrões e história pobre

dari disse...

Que baixaria acadêmica!
Hehehe
adoro isso!!!

Realmente essa história do 'meio' condicionando totalmente as ações individuais, nunca me bastou como explicação plausível para o caos que vivemos...
Fico com o meio-termo pra variar. Mas não quero opinar de fato, porque não vi o filme.

O Lerdo disse...

Baixaria acadêmica foi genial hahahahaha