segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Todo mundo foi criança um dia

Tenho em mente versos que, de tão belos, marcam o meu caráter de forma indelével. Nada muito rebuscado, pelo contrário. A genialidade deles se mostra justamente por sua capacidade de emocionar sem precisar de um dicionário ao lado. Alguns destes vêm de uma das canções mais cantadas e recantadas da história da MPB. De Caetano Veloso, imortalizada pelo próprio e pelo rei Roberto Carlos.

"Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga"

Infelizmente, o tempo deixa de parar a partir do momento em que o descobrimos e passamos a acompanhar sua trajetória. O tempo nos molda, nos torna mais sábios, mais belos (por que não?), mais amargos, mais céticos, mais humanos. O tempo nos rouba a pureza, a energia, a vida. O tempo nos rouba o tempo.

O dado reconfortante é saber que há alguém dando a mínima atenção possível a este implacável. Muito perto da gente, na rua, numa praça, ou mesmo dentro de casa. É bonito ver aquele grupo pulando e gritando, com as têmporas suadas e as roupas sujas, brincando de todos os piques, todos os jogos, usando de toda imaginação possível e imaginável. Crianças. Estas o tempo não atinge.

Para uma criança, qualquer banalidade pode tranformar-se numa coisa lúdica. Brinquedos são maravilhosos, mas se eles não existem, não há problemas. Dê-lhes um caco de tijolo ou giz e eles fazem uma amarelinha. Ou fazem marcações no meio da rua pra brincar de bandeirinha ou queimada. Dê-lhes uma bola então! Que fascínio exerce esta esfera sobre o imaginário da criança. Imagino que o homem inventou a roda ao ver crianças jogando bola. Ou é possível que uma criança mesmo tenha inventado a roda.

A criança é aquela risada gostosa pelo motivo mais besta, é o medo de ser esquecido no ônibus, é a cara de culpa estampada no rosto depois de quebrar o enfeite da sala, é o esconder-se atrás da cortina com a certeza de que ninguém está vendo. Criança é a confirmação de que o tempo age, mas com elas tira férias.

"Se liga, pirralho: papai noel não existe, seus pais não te amam, e você não tem talento. Agora vai comprar uma cerveja"

Então, pais, soltem suas crianças nas ruas, nas praças, nos playgrounds, e até mesmo nas salas de estar. Mas, por favor, PAREM de levá-las aos programas de TV dominicais. Além de ser um saco, é constrangedor vê-las fazendo coisas de adultos que os próprios adultos consideram patéticas demais pra eles próprios fazerem. Crianças não têm tempo a perder. Poupem-nas (e poupem-nos) de Elianas, Faustões, Gugus etc. (uso estes exemplos pra ficarmos apenas nos domingos).

Bom, minha mensagem é essa.
Beijinho, beijinho, tchau, tchau.

O autor do Bozo é jawboneradio.

8 comentários:

CHiP disse...

Muito belo. O texto.

Só um questionamento me vem a mente: que pais lerão isso?

É um balde de água fria, mas fazer o que, né? Ninguém que tenha filhos visita o blog, by the way, o que é uma pena.

Voltando ao post.
"O tempo nos molda, nos torna mais sábios, mais belos (por que não?), mais amargos, mais céticos, mais humanos. O tempo nos rouba a pureza, a energia, a vida. O tempo nos rouba o tempo."

Estava pensando nisso esses dias. Engraçado que você perde muito e não ganha nada. Cadê a troca equivalente? Ok, ok... até ganha, mas o que se ganha não se compara ao que se "perde". Será que estou com a síndrome do Peter Pan?

jeff disse...

Tu vai ser pai?

Rebeca disse...

tu vai ser pai? [2]

dari disse...

belo texto pra variar... engraçado que enquanto filhos apenas, somos pais perfeitos... não deveria mudar qndo passamos da teoria à prática... acho que tb há dedo do tempo nisso...
enfim... criança é tudo de bom, mas tenta terminar a facul primeiro querido lerdo... fikdik..
xD

O Lerdo disse...

Nota de interesse público: não, o Lerdo não vai nem pretende ser pai.

O Chato disse...

Está escrito "futuros pais"?

A Vilã disse...

O Lerdo sempre me surpreendendo...

Como eu queria não ter as preocupações de adulto; não precisar encarar um novo dia com um sorriso amarelo.
Faço meus os versos doe Gonçalves Dias. Fora que hoje aprenderia o "novo português" ¬¬

Tia Jenny disse...

NOssa, eu tenho varias preocupações sobre meu futuro como mãe. "Serei uma boa mãe? Serei paciente? Quantos serão? Meninas? Meninos? Gêmeos? Que sejam saudáveis..." e todos os blablablas que possam apurrinhar minha jovem vida.
Toda vez q perco a paciencia com algo, essas questoes latejam na mente.
O caro lerdo me fez repensar isso.

Lerdo, ufa, por um momento pensei q viria um bacurizinho por ai...
Sabe como q eh ne: O Principe de Mesquita, e toda essa fama de garanhao q vc tem...